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terça-feira, 29 de novembro de 2011

para apaziguar

El rumor de las máquinas crecía
en la sala contigua: ya mi espera
de un adjetivo -o de tu cuerpo- no era
más que un intento de acortar el día.

La noche que llegaba y precedía
el viento del desierto, la certera
luz -o tus pies desnudos en la estera-
del ocaso, su tiempo suspendía.

No recuerdo el amor sino el deseo;
no la falta de fe, sino la esfera-
imagen confrontando su espejeo

con la textura blanca, verdadera
página -o tu cuerpo que aún releo-:
vasto ideograma de la primavera.

Severo Sarduy

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

pequenos contos latino-americanos

"E quando abri os olhos, uma sombra se descolou de uma parede, na mesma calçada, a uns dez metros, e começou a avançar na minha direção, e eu enfiei a mão na minha bolsa, que bolsa nada, na minha mochila de Oaxaca, e procurei meu canivete, que sempre levava comigo na previsão de alguma catástrofe urbana, mas as pontas dos meus dedos, suas polpas que ardiam, só apalparam papéis, livros, revista e até roupa de baixo limpa (lavada à mão sem sabão, só com água e vontade numa das pias desse quarto andar ubíquo como um pesadelo), mas não o canivete, ai, meus amiguinhos, outro terror recorrente e mortalmente latino-americano: procurar sua arma e não a encontrar, procurá-la onde você a deixou e não achá-la".

Bolaño, Amuleto, tradução de Eduardo Brandão

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

pensando os gestos

"Y, ojo, que actuar no es mentir. Es todo lo contrario." Rafael Spregelburd, em uma consideração sobre a mensagem em rede nacional de Cristina Kirchner, mas que serve para pensar muitas outras coisas.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

legado

De vez em quando eu me lembro das palavras ditas pelo pai de Zelig em seu leito de morte: "life is a meaningless nightmare of suffering". E um dos motivos pelos quais eu adoro Woody Allen é que grande parte de sua obra consiste em estabelecer as condições para que isso possa ser dito como piada.

É por isso que pra mim ele jamais deixou de ser in.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

a vida possível

"Estoy siempre interesado en la circulación de las ficciones. No porque yo crea que la realidad es una ficción, o porque crea que no hay punto de verdad o de realidad, para nada. Si tuviera que plantearlo en primera persona, diría que es la idea de la vida posible. En el hecho mismo de escribir el diario que escribo desde hace años, es lo mismo: la ilusión de que uno es otro. Es pensar el como si. ¿Qué hubiera pasado si me bajaba una estación antes del tren? Es imaginarnos en el terreno de lo posible. Ese creo que es el campo personal de la ficción que todos tenemos, no sólo los escritores".

Entrevista de Ricardo Piglia, que pode ser lida aqui.

sábado, 29 de maio de 2010

sobre o porvir

"'Entrevado, desliza, arrasta-se, e o ruído niquelado de seu corpo ao aproximar-se é a única música que se ouve nos desertos calcinados do presente. Do outro lado, no outro front, já se exibe a heterogeneidade daquilo que nossos inimigos sempre consideraram idêntico a si mesmos. O que se poderia imaginar unido, sólido, começa a fragmentar-se, a dissolver-se, erodido pela água da história. Essa derrota é tão inevitável para eles quanto para nós é inevitável suportar o lastro que sua presença, seu cinismo, sua perversão calculada deixaram em nossa memória. Ou porventura alguma vez deixou de fluir, vinda do passado, a proliferação incessante da morte?', disse o Senador. 'Eles, nossos inimigos, com que convicção irão resistir? Que convicção poderá ajudá-los a resistir? Não poderão resistir. Eles vacilam, presos à aridez do porvir. Quanto a nós, aprendemos a sobreviver, conhecemos a substância cristalina, incessante, quase líquida, de que é feita nossa capacidade de resistir'" (Respiração artificial, Ricardo Piglia, tradução de Heloisa Jahn).

sexta-feira, 23 de abril de 2010

as formas do litígio

Toda sexta-feira pela manhã eu volto à leitura do grupo de estudos, em uma tentativa de dar conta do que será discutido logo mais. E toda sexta-feira sinto um certo remorso por estar tão atrasado, e fico pensando como é que eu pude não ler isso antes, com um pouco mais de tempo.

"A heterogeneidade dos jogos de linguagem não é um destino das sociedades atuais que viria suspender a grande narrativa da política. Ela é, ao contrário, constitutiva da política, é o que a separa da igual troca jurídica e comercial de um lado, da alteridade religiosa ou guerreira de outro" (O desentendimento, Jacques Rancière)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

pelo espaço

"Para o indivíduo nascido sob o signo de Saturno, o tempo é o meio da repressão, da inadequação, da repetição, mero cumprimento. No tempo, somos apenas o que somos: o que sempre fomos. No espaço, podemos ser outra pessoa. O escasso senso de orientação de Benjamin e sua incapacidade de interpretar o mapa de uma rua transformam-se numa paixão pelas viagens e no domínio da arte de se perder. O tempo não nos concede muitas oportunidades: ele nos impele por trás, empurrando-nos pela estreita passagem do presente que desemboca no futuro. O espaço, ao contrário, é amplo, fértil de possibilidades, posições, interseções, passagens, desvios, conversões, becos sem saída, ruas de mão única. Na realidade, demasiadas possibilidades. Como o temperamento saturnino é vagaroso, propenso à indecisão, às vezes precisamos abrir caminho de faca na mão. Às vezes, acabamos virando a faca contra nós mesmos" (Sob o signo de Saturno, Susan Sontag).

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

from weeds

E então Celia Hodes diz a Shane, comentando o comportamento estranho que ela passou a assumir após o diagnóstico de sua doença: "Let your freak flag fly!"

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

ponerse en juego

Em algum ponto do primeiro semestre, como uma espécie de dócil alienígena eu me inseri silenciosamente entre os alunos do mestrado em teoria literária da Universidade de Buenos Aires para assistir às aulas sobre teorias da modernidade. E ainda que possa soar piegas e um tanto inadequado, dado o contexto – as geralmente circunspectas discussões acadêmicas – digo que foi um período bonito. Primeiro porque esteve inserido em um arco mais amplo de experiências nas quais eu me deixei alcançar pelos mais diferentes estímulos de uma maneira desorganizada e aberta, esperando capturar nesse percurso algo que escapasse a uma consciência obcecada em organizar e filtrar, traçar prognósticos e explicar em retrospectiva. Também porque foi uma oportunidade como poucas para desfrutar de uma troca que pôde acontecer imune às chateações que rondam o meio acadêmico e que por vezes nos fazem repensá-lo como zona de investimentos intelectuais, profissionais e, diria até, afetivos.

No meu triplo alheamento – por não ser argentino, por não estar regularmente matriculado e sequer ser um estudante de literatura – a experiência apareceu como momento gratuito, como se estivéssemos ali reunidos unicamente para compartilhar textos e, junto com eles, nossas impressões (no caso, as impressões dos outros, já que as minhas eu guardei para mim, como ouvinte literal que fui). Sei que a configuração, de fato, não era essa: como todo ambiente de pós-graduação, ali nada era inteiramente gratuito e desinteressado. Mas para mim foi – ou melhor, pôde ser, dadas as circunstâncias.

Por meio de uma leitura não-deslumbrada mas carinhosa dos textos, fui recuperando algumas palavras e a força de cada uma delas, amplificadas pela minha disponibilidade para acolher algo novo, que poderia ser simplesmente uma nova forma de ler – como quando a professora se esforçava para dar a melhor entonação a um texto ou voltava algumas linhas para repeti-las, desculpando-se porque não as havia “lido bem”.

Neste ponto, assim como apareciam indissociáveis a literatura, a filosofia e a política, para mim existiram como uma só presença o estudo, os teóricos e a natureza dos meus dias, sendo os textos fragmentos delicados onde eu poderia pousar a vista e encontrar abrigo, consultando-os como um oráculo a me indicar possíveis posturas e caminhos quando as referências biográficas se tornavam mais obscuras e difíceis de seguir. Foi nesse contexto que lemos juntos um belo ensaio de Agamben, do qual guardei especialmente um trecho:

“¿Pero qué significa, para una vida, ponerse – o ser puesta – en juego? 

Nastasia Filippovna – en El idiota, de Dostoievski – entra en el salón de su casa, la noche que decidirá sobre su vida. Ha prometido a Afanasi Ivanovich Totski, el hombre que la ha deshonrado y mantenido hasta entonces, que dará una respuesta a su ofrecimiento de casarse con el joven Gania a cambio de 75.000 rublos. En el salón están presentes todos sus amigos y conocidos, también el general Iepanchin, también el inefable Lebedev, también el venenoso Ferdischenko. También el príncipe Myshkin, también Roghozin, que en un determinado momento hace su ingreso a la cabeza de una gavilla impresentable, llevando en una mano un paquete de cien mil rublos destinados a Nastasia. Desde el comienzo, la velada tiene algo de enfermizo, de febril. Por outro lado, la dueña de casa no hace más que repetirlo: tengo fiebre, estoy mal.

Aceptando jugar el desagradable juego de sociedad propuesto por Ferdischenko, en el cual cada uno debe confesar la propia abyección, Nastasia pone de pronto toda la velada bajo el signo del juego. Y es por juego o capricho que hará que el príncipe Myshkin decida su respuesta a Totski, cuando Myshkin es para ella casi un desconocido. Pero luego todo apremia, todo se precipita. Imprevistamente ella acepta casarse con el príncipe, para desdecirse de inmediato y elegir al ebrio Rogozhin. Y llegado un cierto punto, como alterada, agarra el paquete con cien mil rublos y lo arroja al fuego, prometiendo al ávido Gania que el dinero será suyo si lo arranca de las llamas con sus propias manos.

¿Qué guía las acciones de Nastasia Filippovna? Es cierto que sus gestos, en la medida en que son excesivos, son incomparablemente superiores a los cálculos y a los comportamientos decorosos de todos los presentes (con la sola excepción de Myshkin). Y no obstante, es imposible vislumbrar en ellos algo así como una decisión  racional o un principio moral. Mucho menos se puede decir que actúe para vengarse (de Totski, por ejemplo). Desde el principio hasta el final, Nastasia parece presa del delirio, como sus amigos no cansan de señalar (‘pero qué estás diciendo, tienes un ataque’, ‘no la comprendo, ha perdido la cabeza’).

Nastasia Filippovna ha puesto en juego su vida; o acaso ha dejado que fuera puesta en juego por Myshkin, por Rogozhin, por Lebedev y, en el fondo, por su propio capricho. Por eso su comportamiento es inexplicable; por eso ella permanece perfectamente oscura e incomprendida en todos sus actos. Una vida ética no es simplemente la que se somete a la ley moral, sino aquella que acepta ponerse en juego en sus gestos de manera irrevocable y sin reservas. Incluso a riesgo de que, de este modo, su felicidad y su desventura sean decididas de una vez y para siempre”.


(Giorgio Agamben, El autor como gesto)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

uma epígrafe

Para começar, uma linha com a atmosfera daquilo que foi a minha obsessão durante todo o semestre. De Vaca sagrada, romance de Diamela Eltit:

"Imaginé una bandada tan grande que oscurecía el cielo de la tarde".