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quarta-feira, 6 de abril de 2011

o horror

Começou mais um daqueles períodos superneurotizantes em que eu sonho quase todas as noites com longuíssimas discussões sobre a tese ou com filmes que seriam incríveis (se existissem) para compor o meu corpus. Foi sempre assim: não importa se é o mais irrisório e burocrático ou o mais importante e ambicioso, nos momentos mais intensivos o trabalho sempre colonizou as minhas noites, transformando o sonho em um prolongamento mais acurado das preocupações do dia.

sábado, 9 de outubro de 2010

divagações telefônicas

Esse negócio de ligar no dia seguinte é sempre uma microtensão. Não me acostumo nunca. O bom é que, aparentemente, eu consegui encontrar um ponto preciso aqui em casa onde o sinal da oi fica estável. Meu celular, o melhor da telefonia fixa.

domingo, 26 de setembro de 2010

in dreams

Meus sonhos (ou no caso de hoje, pesadelos) às vezes vêm bem explicadinhos, com moral da história no fim e tudo mais. Dessa vez, tudo indica que o inconsciente está me mandando a clara mensagem de que, embora eu me engane e pense que venho fazendo tudo direito - e que para cada abstenção há uma justificativa - no fim das contas eu sei que estou mesmo é me autosabotando, e que o passado paira como um fantasma para lembrar o que me espera caso eu não me vire nos trinta.

Evidentemente, se eu contasse isso a um psicanalista ele diria que não tem nada a ver, é outra coisa.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

vírgulas,

melhor não tê-las.

sábado, 31 de julho de 2010

filmes para dormir

Já contabilizo umas três ou quatro tentativas frustradas de ver Grande Hotel. O insucesso se dá pelo fato de que invariavelmente durmo, quase sempre logo nos primeiros minutos. Mas não diria que isso se deve a um problema do filme em particular, ou mesmo a uma possível falta de interesse de minha parte. Aliás, sequer diria que existe, de fato, algum problema nisso. Simplesmente durmo. Porque há noites em que um filme se torna prazeroso apesar de (ou justamente por) isso: a gente aperta o play e dorme. Porque essa é uma forma agradável de passar os últimos minutos antes de pegar no sono. Ou ainda porque, embora não se consume nenhuma continuidade entre a superfície agradável dos planos e a turbulência monótona dos meus sonhos, ainda assim restam sempre alguns instantes nos quais, entre uma zona e outra - a da vigília e a do sono profundo - nós nos misturamos, temporariamente indiscerníveis.

Do que falei anteriormente decorre, é certo, que não se requer nenhuma característica especial pra que um filme desempenhe essa missão de ser objeto de uma relação espectatorial interrompida (o que por sua vez seria uma forma mais cabeçuda de falar que o cinema é também a valeriana dos aficionados, o lexotan dos que não têm receita nem contatos). Questão de mera contingência que seja este ou aquele o título elegido para figurar como coadjuvante na intimidade das noites de preguiça e de cochilo no sofá. Pela primeira vez executado na nossa televisão em uma noite sonolenta, tal filme passa a ser uma carta na manga: um item abandonado pela metade que poderia sempre ser retomado. De fato, para os mais obcecados, um filme ou um livro pela metade são pendências que pairam exigindo consumação - e ainda que nada nem ninguém oficialize essa cobrança. Daí para uma revisitação em outra noite sonolenta é uma questão de tempo e de certo apego à familiaridade das experiências agradáveis que podem ser repetidas. Delícia de círculo vicioso da preguiça sempre retomado até que, em algum momento, finalmente se completa.

Já tive vários filmes para noites de preguiça. Não poderia contar quantas vezes eles foram vistos senão pela soma de pedaços colhidos ao longo de muitas tentativas. Nunca - ou quase nunca - linearmente vistos. Foram vários os filmes que - pra colocar de forma mais positiva - teriam sido não tanto negligenciados mas, pelo contrário, detentores de um privilégio, porque neles depositei a possibilidade de uma rara e difícil espontaneidade - "fruição" no sentido mais solto e relaxado que o termo poderia sugerir. Deitado no sofá, sem compromisso de consumar a obra, de fechá-la, de chegar ao fim, o filme flui: primeiro como detentor principal da atenção, depois já em um segundo plano obscurecido, rivalizando com o atrativo de cobertas e almofadas, depois sumindo e reparecendo apenas esporadicamente entre um cochilo e outro. Colocando dessa forma, dormir durante um filme não seria indício de fracasso da obra ou atestado de pouco interesse: com meu sono, presto-lhe uma descomprometida e preguiçosa reverência.

domingo, 13 de junho de 2010

sin dejar huellas

A opção de voltar não constitui nenhum defeito; faz parte da fraqueza e da dúvida de cada um. É por isso que é preciso colocar fogo na casa antes de partir, abraçar o definitivo logo no primeiro impulso de coragem: para que o mesmo não persista sequer como hipótese.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

lá e cá

Adiando o início da preparação de um seminário, escuto ao longe a televisão e penso na solução para os meus problemas: preciso me tornar uma personalidade pública poderosa como Dilmão, que vai ao sbt dar entrevista de helicóptero. E para que não reste dúvidas, logo em seguida a mesma reportagem informa que  Serra está, pasmem!, em Juazeiro do Norte pedindo a benção ao padre Cícero.

É a cobertura das eleições mostrando que a solução para os meus problemas geográficos está no estilo de vida da política brasileira.

domingo, 16 de maio de 2010

cinco minutos

Depois de duas ou três sonecas, o despertador do celular aparentemente desiste de mim. Chega a ser imoral sua condescendência para com o meu sono - um sono que por sua vez é eterno, como o desejo dominical de tomar frozen café.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

destempos

O sujeito acorda pensando que ainda hoje vai comer a comida da mãe, descansar, ver a família, fugir uns dias da loucura e então as coisas dão muito, mas muito errado. Aí bate a dúvida, se essa confusão é de fato aberrante ou se é tudo muito comum e você só está superestimando porque, afinal, foi com você que aconteceu e só a partir desse ponto de vista é que a bagunça se torna visível em todos os seus detalhes, sem controle.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

traços fundantes

Talvez as pessoas nunca encontrem, de fato, uma definição estável para si, mas depois de certa idade existem pelo menos alguns aspectos que começamos - mesmo que um pouco a contragosto - a reconhecer. Nesse ponto da minha vida, só posso discernir dois marcos imprecisos e, no entanto, aparentemente definitivos: 1) eu não sei andar em linha reta e 2) eu só gosto do que é "inútil".