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sábado, 21 de maio de 2011

contra as nulidades

Pessoas que falam coisas estúpidas e/ou indelicadas com a intenção pobremente mal-disfarçada de chocar. Pessoas que ficam muito sinceramente chocadas com declarações bombásticas pré-fabricadas. Pessoas que tentam contemporizar. Pessoas que se esforçam para articular a opinião menos previsível sobre uma "polêmica" que, no entanto, já nasceu óbvia: pronto, está aí uma daquelas situações em que quase todas as posturas em jogo são igualmente irritantes.

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Entre a "liberdade de expressão" e a "censura", entre o "politicamente correto" e a imbecilidade sem freios, eu fico com a campanha por um pouco mais de silêncio. Muitas vezes, a melhor forma de expressar que algo é muito irrelevante ou babaca é simplesmente não comentar nada a respeito.

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O problema é que nem sempre conseguimos lembrar que, se algumas questões são incontornáveis, existem por outro lado muitos tópicos que poderiam ser simplesmente relegados ao limbo de sua própria irrelevância.

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Toda vez que vejo/ouço as pessoas falando em Rafinhas e Gentilis, Von Trier ou fim do mundo, eu lembro da frase maravilhosa de uma amiga, que carrego para a vida: "eu não quero que isso faça parte do meu imaginário".

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Este post, claro, é em parte uma contradição. Dizer que prefiro não dizer.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

uma promessa de futuro

O boom se tornou assunto recorrente. Sempre que alguém o enuncia, multiplica também os seus efeitos, pois ele é determinado não apenas pela concretude dos fatos materiais, mas também – e talvez sobretudo – pela propagação do sentimento que celebra. Ele se realiza como antecipação: só existe quando acreditamos que o futuro se fez presente e, sendo assim, é indissociável da noção de progresso. Sua força é centrífuga, sua imagem é a de uma curva ascendente e seu movimento característico é o salto.

Uma vez deflagrado, o boom converte o futuro próximo em presente – atestando, portanto, uma aceleração – e converte o horizonte intangível em uma aspiração que se pretende factual. Sua força deriva da sugestão de longevidade. Paradoxalmente, ele é tanto a expressão de um contexto imediato quanto o indicador de uma tendência que não sobrevive se não é capaz de assegurar uma duração. Sendo assim, o olhar em perspectiva seria a única arma capaz de colocá-lo à prova, e a distância é o lastro que o ratifica ou a força que o desmente.

O boom, portanto, coloca em circulação uma promessa de futuro – é aposta e especulação. Nos tempos que correm, é quase sempre apresentado sob a forma de uma explosão de consumo que é tão promissora quanto alarmante. Isso porque o anúncio do boom nos convida a comparar conquistas, mensurar ganhos e formular novas demandas, e se resulta em grande medida insustentável é porque leva à formulação de anseios mais ambiciosos que são absolutamente legítimos. Ele cria padrões de vida e expectativas de futuro que muitas vezes não estão asseguradas ou mesmo previstas pelo marco dos processos que o instauram.

É por isso que ao ouvir falar do boom eu não consigo, enfim, deixar de pensar no que vem depois dele. Não porque o condene, ou porque duvide da realidade momentânea que ele busca exprimir, mas porque – talvez devido ao meu modo de pensar irremediavelmente catastrófico – não posso deixar de me perguntar se será possível cumprir as promessas que ele assinala, responder às crenças que o alimentam.

domingo, 19 de dezembro de 2010

greve

Quando chego aqui em Juazeiro, sempre rola esse momento de conversa com a família em que eu tenho a sensação de que estou vendo a "realidade" da política assim, bem na minha cara. Concursos fraudados, manobras na câmara de vereadores, sessões fechadas, desrespeito a resoluções anteriormente votadas (e aprovadas) em plenário, uso ostensivo de força policial: mais do que procurar nos grandes fatos noticiados, basta dar uma olhada nas cidades do interior para comprovar que o estado de exceção é a regra.

sábado, 29 de maio de 2010

sobre o porvir

"'Entrevado, desliza, arrasta-se, e o ruído niquelado de seu corpo ao aproximar-se é a única música que se ouve nos desertos calcinados do presente. Do outro lado, no outro front, já se exibe a heterogeneidade daquilo que nossos inimigos sempre consideraram idêntico a si mesmos. O que se poderia imaginar unido, sólido, começa a fragmentar-se, a dissolver-se, erodido pela água da história. Essa derrota é tão inevitável para eles quanto para nós é inevitável suportar o lastro que sua presença, seu cinismo, sua perversão calculada deixaram em nossa memória. Ou porventura alguma vez deixou de fluir, vinda do passado, a proliferação incessante da morte?', disse o Senador. 'Eles, nossos inimigos, com que convicção irão resistir? Que convicção poderá ajudá-los a resistir? Não poderão resistir. Eles vacilam, presos à aridez do porvir. Quanto a nós, aprendemos a sobreviver, conhecemos a substância cristalina, incessante, quase líquida, de que é feita nossa capacidade de resistir'" (Respiração artificial, Ricardo Piglia, tradução de Heloisa Jahn).

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

from weeds

E então Celia Hodes diz a Shane, comentando o comportamento estranho que ela passou a assumir após o diagnóstico de sua doença: "Let your freak flag fly!"

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

uma epígrafe

Para começar, uma linha com a atmosfera daquilo que foi a minha obsessão durante todo o semestre. De Vaca sagrada, romance de Diamela Eltit:

"Imaginé una bandada tan grande que oscurecía el cielo de la tarde".