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quarta-feira, 6 de abril de 2011

o horror

Começou mais um daqueles períodos superneurotizantes em que eu sonho quase todas as noites com longuíssimas discussões sobre a tese ou com filmes que seriam incríveis (se existissem) para compor o meu corpus. Foi sempre assim: não importa se é o mais irrisório e burocrático ou o mais importante e ambicioso, nos momentos mais intensivos o trabalho sempre colonizou as minhas noites, transformando o sonho em um prolongamento mais acurado das preocupações do dia.

terça-feira, 6 de julho de 2010

ancoragens

Quatro meses de doutorado e uma única possível convicção: aquilo que, sempre que revisitado, faz com que nos reapaixonemos pelo nosso problema - isso é o que não pode ser descartado. No meu caso, duas ou três imagens, emblemas.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

a produção intelectual e seus embates

Exceto por algumas (poucas) ressalvas, eu concordo com quase tudo que aparece no tão comentado texto de João Moreira Salles, lido durante a conferência para a Academia Brasileira de Ciências. Se as pessoas da área parassem um pouquinho de achar que precisam se defender de todo mundo o tempo inteiro e partissem para uma saudável e necessária auto-crítica, peceberiam logo que todo o hype excessivo em torno das artes é completamente injustificado.

Nesse sentido, a resposta dos que tentam rebater o texto é bastante sintomática do tipo de estratégia que orienta as respostas do campo: logo recorrem ao argumento defensivo de que as insuportavelmente apolíneas "ciências duras" pretenderiam apossar-se de todas as fontes de financiamento e, de quebra, relegar à extrema margem toda forma de delicadeza. Não duvido de que em alguma medida isto seja verdade. O problema é que, se a compensação se dá de forma simbólica pela exaltação do estiloso e do descolê como critérios para o que seria socialmente relevante ou digno de visibilidade, pior para nós. A afetação, a arrogância e a egolatria de tantos profissionais das artes e da moda, bem como a inflação dos recursos públicos para projetos e ações artísticas de relevância duvidosa são todos indícios de que a distribuição desigual de prestígio e visibilidade talvez esteja revelando sua face insustentável e seus efeitos nocivos.

Longe de mim querer fortalecer posições retrógradas que tentam pautar escolhas profissionais pelo critério da utilidade ou da mensurabilidade dos resultados - minhas escolhas sempre contrariaram esse tipo de perspectiva. Não obstante, nos tempos em que meio mundo canta, dança e representa - ou assim acredita -, acho interessante que alguém proponha pensar os modos pelos quais são determinados o peso e o reconhecimento que as distintas profissões terminam por adquirir dentro de uma certa economia do trabalho intelectual.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

ponerse en juego

Em algum ponto do primeiro semestre, como uma espécie de dócil alienígena eu me inseri silenciosamente entre os alunos do mestrado em teoria literária da Universidade de Buenos Aires para assistir às aulas sobre teorias da modernidade. E ainda que possa soar piegas e um tanto inadequado, dado o contexto – as geralmente circunspectas discussões acadêmicas – digo que foi um período bonito. Primeiro porque esteve inserido em um arco mais amplo de experiências nas quais eu me deixei alcançar pelos mais diferentes estímulos de uma maneira desorganizada e aberta, esperando capturar nesse percurso algo que escapasse a uma consciência obcecada em organizar e filtrar, traçar prognósticos e explicar em retrospectiva. Também porque foi uma oportunidade como poucas para desfrutar de uma troca que pôde acontecer imune às chateações que rondam o meio acadêmico e que por vezes nos fazem repensá-lo como zona de investimentos intelectuais, profissionais e, diria até, afetivos.

No meu triplo alheamento – por não ser argentino, por não estar regularmente matriculado e sequer ser um estudante de literatura – a experiência apareceu como momento gratuito, como se estivéssemos ali reunidos unicamente para compartilhar textos e, junto com eles, nossas impressões (no caso, as impressões dos outros, já que as minhas eu guardei para mim, como ouvinte literal que fui). Sei que a configuração, de fato, não era essa: como todo ambiente de pós-graduação, ali nada era inteiramente gratuito e desinteressado. Mas para mim foi – ou melhor, pôde ser, dadas as circunstâncias.

Por meio de uma leitura não-deslumbrada mas carinhosa dos textos, fui recuperando algumas palavras e a força de cada uma delas, amplificadas pela minha disponibilidade para acolher algo novo, que poderia ser simplesmente uma nova forma de ler – como quando a professora se esforçava para dar a melhor entonação a um texto ou voltava algumas linhas para repeti-las, desculpando-se porque não as havia “lido bem”.

Neste ponto, assim como apareciam indissociáveis a literatura, a filosofia e a política, para mim existiram como uma só presença o estudo, os teóricos e a natureza dos meus dias, sendo os textos fragmentos delicados onde eu poderia pousar a vista e encontrar abrigo, consultando-os como um oráculo a me indicar possíveis posturas e caminhos quando as referências biográficas se tornavam mais obscuras e difíceis de seguir. Foi nesse contexto que lemos juntos um belo ensaio de Agamben, do qual guardei especialmente um trecho:

“¿Pero qué significa, para una vida, ponerse – o ser puesta – en juego? 

Nastasia Filippovna – en El idiota, de Dostoievski – entra en el salón de su casa, la noche que decidirá sobre su vida. Ha prometido a Afanasi Ivanovich Totski, el hombre que la ha deshonrado y mantenido hasta entonces, que dará una respuesta a su ofrecimiento de casarse con el joven Gania a cambio de 75.000 rublos. En el salón están presentes todos sus amigos y conocidos, también el general Iepanchin, también el inefable Lebedev, también el venenoso Ferdischenko. También el príncipe Myshkin, también Roghozin, que en un determinado momento hace su ingreso a la cabeza de una gavilla impresentable, llevando en una mano un paquete de cien mil rublos destinados a Nastasia. Desde el comienzo, la velada tiene algo de enfermizo, de febril. Por outro lado, la dueña de casa no hace más que repetirlo: tengo fiebre, estoy mal.

Aceptando jugar el desagradable juego de sociedad propuesto por Ferdischenko, en el cual cada uno debe confesar la propia abyección, Nastasia pone de pronto toda la velada bajo el signo del juego. Y es por juego o capricho que hará que el príncipe Myshkin decida su respuesta a Totski, cuando Myshkin es para ella casi un desconocido. Pero luego todo apremia, todo se precipita. Imprevistamente ella acepta casarse con el príncipe, para desdecirse de inmediato y elegir al ebrio Rogozhin. Y llegado un cierto punto, como alterada, agarra el paquete con cien mil rublos y lo arroja al fuego, prometiendo al ávido Gania que el dinero será suyo si lo arranca de las llamas con sus propias manos.

¿Qué guía las acciones de Nastasia Filippovna? Es cierto que sus gestos, en la medida en que son excesivos, son incomparablemente superiores a los cálculos y a los comportamientos decorosos de todos los presentes (con la sola excepción de Myshkin). Y no obstante, es imposible vislumbrar en ellos algo así como una decisión  racional o un principio moral. Mucho menos se puede decir que actúe para vengarse (de Totski, por ejemplo). Desde el principio hasta el final, Nastasia parece presa del delirio, como sus amigos no cansan de señalar (‘pero qué estás diciendo, tienes un ataque’, ‘no la comprendo, ha perdido la cabeza’).

Nastasia Filippovna ha puesto en juego su vida; o acaso ha dejado que fuera puesta en juego por Myshkin, por Rogozhin, por Lebedev y, en el fondo, por su propio capricho. Por eso su comportamiento es inexplicable; por eso ella permanece perfectamente oscura e incomprendida en todos sus actos. Una vida ética no es simplemente la que se somete a la ley moral, sino aquella que acepta ponerse en juego en sus gestos de manera irrevocable y sin reservas. Incluso a riesgo de que, de este modo, su felicidad y su desventura sean decididas de una vez y para siempre”.


(Giorgio Agamben, El autor como gesto)