domingo, 19 de setembro de 2010

cá entre nós

Depois do twitter e do mural do facebook, tenho a sensação de que, quando escrevo no blog, garanto um mínimo de reserva. Claro que a exposição existe de qualquer jeito, mas hoje parece um exagero que os blogs tenham sido tão criticados pela exibição desmedida e narcisista que causariam. É possível, então, que essa mudança de perspectiva seja a forma mais prática de lembrar que a privacidade, afinal, assim como quase tudo, é uma noção historicamente variável. Não demora muito, inventam outra coisa e aí a gente vai olhar para o twitter como um meio detentor de salvaguardas suficientes para conceder-nos a sensação de que a nossa intimidade está segura. Enfim, não penso como Saramago, que afirmou que estaríamos caminhando para a era do grunhido como forma de comunicação; a distância entre pensar, elaborar o pensamento, comunicá-lo e ser “ouvido” é que está diminuindo muito rápido.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

legado

De vez em quando eu me lembro das palavras ditas pelo pai de Zelig em seu leito de morte: "life is a meaningless nightmare of suffering". E um dos motivos pelos quais eu adoro Woody Allen é que grande parte de sua obra consiste em estabelecer as condições para que isso possa ser dito como piada.

É por isso que pra mim ele jamais deixou de ser in.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

an-esthesia

E ainda que tenha sido sempre uma grande besteira, foi quando eu perdi o hábito antigo de pensar minha vida como uma narrativa vista por outros, de arranjar pra ela trilha sonora e de emendá-la (passado-presente-futuro) criando com isso algo que se aproximasse de um "sentido", foi, enfim, justamente aí que eu virei esse zumbi que fica na frente do computador comendo chocolates e que não consegue mais se entusiasmar com nada.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

a vida possível

"Estoy siempre interesado en la circulación de las ficciones. No porque yo crea que la realidad es una ficción, o porque crea que no hay punto de verdad o de realidad, para nada. Si tuviera que plantearlo en primera persona, diría que es la idea de la vida posible. En el hecho mismo de escribir el diario que escribo desde hace años, es lo mismo: la ilusión de que uno es otro. Es pensar el como si. ¿Qué hubiera pasado si me bajaba una estación antes del tren? Es imaginarnos en el terreno de lo posible. Ese creo que es el campo personal de la ficción que todos tenemos, no sólo los escritores".

Entrevista de Ricardo Piglia, que pode ser lida aqui.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

vírgulas,

melhor não tê-las.

sábado, 31 de julho de 2010

filmes para dormir

Já contabilizo umas três ou quatro tentativas frustradas de ver Grande Hotel. O insucesso se dá pelo fato de que invariavelmente durmo, quase sempre logo nos primeiros minutos. Mas não diria que isso se deve a um problema do filme em particular, ou mesmo a uma possível falta de interesse de minha parte. Aliás, sequer diria que existe, de fato, algum problema nisso. Simplesmente durmo. Porque há noites em que um filme se torna prazeroso apesar de (ou justamente por) isso: a gente aperta o play e dorme. Porque essa é uma forma agradável de passar os últimos minutos antes de pegar no sono. Ou ainda porque, embora não se consume nenhuma continuidade entre a superfície agradável dos planos e a turbulência monótona dos meus sonhos, ainda assim restam sempre alguns instantes nos quais, entre uma zona e outra - a da vigília e a do sono profundo - nós nos misturamos, temporariamente indiscerníveis.

Do que falei anteriormente decorre, é certo, que não se requer nenhuma característica especial pra que um filme desempenhe essa missão de ser objeto de uma relação espectatorial interrompida (o que por sua vez seria uma forma mais cabeçuda de falar que o cinema é também a valeriana dos aficionados, o lexotan dos que não têm receita nem contatos). Questão de mera contingência que seja este ou aquele o título elegido para figurar como coadjuvante na intimidade das noites de preguiça e de cochilo no sofá. Pela primeira vez executado na nossa televisão em uma noite sonolenta, tal filme passa a ser uma carta na manga: um item abandonado pela metade que poderia sempre ser retomado. De fato, para os mais obcecados, um filme ou um livro pela metade são pendências que pairam exigindo consumação - e ainda que nada nem ninguém oficialize essa cobrança. Daí para uma revisitação em outra noite sonolenta é uma questão de tempo e de certo apego à familiaridade das experiências agradáveis que podem ser repetidas. Delícia de círculo vicioso da preguiça sempre retomado até que, em algum momento, finalmente se completa.

Já tive vários filmes para noites de preguiça. Não poderia contar quantas vezes eles foram vistos senão pela soma de pedaços colhidos ao longo de muitas tentativas. Nunca - ou quase nunca - linearmente vistos. Foram vários os filmes que - pra colocar de forma mais positiva - teriam sido não tanto negligenciados mas, pelo contrário, detentores de um privilégio, porque neles depositei a possibilidade de uma rara e difícil espontaneidade - "fruição" no sentido mais solto e relaxado que o termo poderia sugerir. Deitado no sofá, sem compromisso de consumar a obra, de fechá-la, de chegar ao fim, o filme flui: primeiro como detentor principal da atenção, depois já em um segundo plano obscurecido, rivalizando com o atrativo de cobertas e almofadas, depois sumindo e reparecendo apenas esporadicamente entre um cochilo e outro. Colocando dessa forma, dormir durante um filme não seria indício de fracasso da obra ou atestado de pouco interesse: com meu sono, presto-lhe uma descomprometida e preguiçosa reverência.

terça-feira, 6 de julho de 2010

ancoragens

Quatro meses de doutorado e uma única possível convicção: aquilo que, sempre que revisitado, faz com que nos reapaixonemos pelo nosso problema - isso é o que não pode ser descartado. No meu caso, duas ou três imagens, emblemas.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

as time goes by

Assombrado por uma dúvida: quando a pessoa vai repetidamente se olhando no espelho e dizendo que está acabada, em que ponto ela deve concluir que é uma pessoa acabada?

terça-feira, 15 de junho de 2010

esconjuro

"Acho que, pra começar, o que eu poderia te dizer é: tenta não ficar "impressionada". Mas digo isso no sentido interiorano da palavra, sabe? Lá em Juazeiro, pelo menos, os mais velhos dizem que uma pessoa tá impressionada quando não consegue tirar algo da cabeça, e quando começa a ver esse algo em todo lugar. Ou seja, impressionado é como eles chamam o pirralho que não consegue dormir depois de ver filme de fantasma na televisão, ou a pessoa que fica repetindo a mesma história por dias, se admirando.

Quando digo pra você não ficar impressionada, então, é porque já me impressionei algumas vezes - até com fantasma - e sei que tem horas em que a gente começa a ver a mesma coisa em tudo, e nessas horas, tudo começa a virar
aquela coisa, até um ponto onde a gente já não vê diferença entre prever o que vai acontecer e agir de acordo com o que a gente espera que aconteça".

domingo, 13 de junho de 2010

sin dejar huellas

A opção de voltar não constitui nenhum defeito; faz parte da fraqueza e da dúvida de cada um. É por isso que é preciso colocar fogo na casa antes de partir, abraçar o definitivo logo no primeiro impulso de coragem: para que o mesmo não persista sequer como hipótese.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

a produção intelectual e seus embates

Exceto por algumas (poucas) ressalvas, eu concordo com quase tudo que aparece no tão comentado texto de João Moreira Salles, lido durante a conferência para a Academia Brasileira de Ciências. Se as pessoas da área parassem um pouquinho de achar que precisam se defender de todo mundo o tempo inteiro e partissem para uma saudável e necessária auto-crítica, peceberiam logo que todo o hype excessivo em torno das artes é completamente injustificado.

Nesse sentido, a resposta dos que tentam rebater o texto é bastante sintomática do tipo de estratégia que orienta as respostas do campo: logo recorrem ao argumento defensivo de que as insuportavelmente apolíneas "ciências duras" pretenderiam apossar-se de todas as fontes de financiamento e, de quebra, relegar à extrema margem toda forma de delicadeza. Não duvido de que em alguma medida isto seja verdade. O problema é que, se a compensação se dá de forma simbólica pela exaltação do estiloso e do descolê como critérios para o que seria socialmente relevante ou digno de visibilidade, pior para nós. A afetação, a arrogância e a egolatria de tantos profissionais das artes e da moda, bem como a inflação dos recursos públicos para projetos e ações artísticas de relevância duvidosa são todos indícios de que a distribuição desigual de prestígio e visibilidade talvez esteja revelando sua face insustentável e seus efeitos nocivos.

Longe de mim querer fortalecer posições retrógradas que tentam pautar escolhas profissionais pelo critério da utilidade ou da mensurabilidade dos resultados - minhas escolhas sempre contrariaram esse tipo de perspectiva. Não obstante, nos tempos em que meio mundo canta, dança e representa - ou assim acredita -, acho interessante que alguém proponha pensar os modos pelos quais são determinados o peso e o reconhecimento que as distintas profissões terminam por adquirir dentro de uma certa economia do trabalho intelectual.

sábado, 29 de maio de 2010

sobre o porvir

"'Entrevado, desliza, arrasta-se, e o ruído niquelado de seu corpo ao aproximar-se é a única música que se ouve nos desertos calcinados do presente. Do outro lado, no outro front, já se exibe a heterogeneidade daquilo que nossos inimigos sempre consideraram idêntico a si mesmos. O que se poderia imaginar unido, sólido, começa a fragmentar-se, a dissolver-se, erodido pela água da história. Essa derrota é tão inevitável para eles quanto para nós é inevitável suportar o lastro que sua presença, seu cinismo, sua perversão calculada deixaram em nossa memória. Ou porventura alguma vez deixou de fluir, vinda do passado, a proliferação incessante da morte?', disse o Senador. 'Eles, nossos inimigos, com que convicção irão resistir? Que convicção poderá ajudá-los a resistir? Não poderão resistir. Eles vacilam, presos à aridez do porvir. Quanto a nós, aprendemos a sobreviver, conhecemos a substância cristalina, incessante, quase líquida, de que é feita nossa capacidade de resistir'" (Respiração artificial, Ricardo Piglia, tradução de Heloisa Jahn).

domingo, 23 de maio de 2010

just in time

Rever um dos filmes que costumavam embalar suas ilusões românticas há alguns anos é como transformar a casa em um sepulcro: cheio de velhos fantasmas.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

pequenos cataclismos

Quando o tempo presente, esse tempo aberto, das dúvidas, revela-se tão ameaçado que só pode ser percebido como o instante em que as vidas se adensam para desvendar o que permanecia velado – mais uma vez a equivocada metáfora –, o que o eterno-imediato confronta é o ponto de virada, a força centrífuga que nos dispersará. É esse o segredo: o que há de mais denso e definitivo parece contraditoriamente vago ou irreal por ser aquilo que está sendo jogado em nossas vidas sem fazer ruído enquanto, descrentes da mudança, ocupamo-nos com as mesmas perturbadoras distrações.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

lá e cá

Adiando o início da preparação de um seminário, escuto ao longe a televisão e penso na solução para os meus problemas: preciso me tornar uma personalidade pública poderosa como Dilmão, que vai ao sbt dar entrevista de helicóptero. E para que não reste dúvidas, logo em seguida a mesma reportagem informa que  Serra está, pasmem!, em Juazeiro do Norte pedindo a benção ao padre Cícero.

É a cobertura das eleições mostrando que a solução para os meus problemas geográficos está no estilo de vida da política brasileira.

domingo, 16 de maio de 2010

cinco minutos

Depois de duas ou três sonecas, o despertador do celular aparentemente desiste de mim. Chega a ser imoral sua condescendência para com o meu sono - um sono que por sua vez é eterno, como o desejo dominical de tomar frozen café.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

destempos

O sujeito acorda pensando que ainda hoje vai comer a comida da mãe, descansar, ver a família, fugir uns dias da loucura e então as coisas dão muito, mas muito errado. Aí bate a dúvida, se essa confusão é de fato aberrante ou se é tudo muito comum e você só está superestimando porque, afinal, foi com você que aconteceu e só a partir desse ponto de vista é que a bagunça se torna visível em todos os seus detalhes, sem controle.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

as formas do litígio

Toda sexta-feira pela manhã eu volto à leitura do grupo de estudos, em uma tentativa de dar conta do que será discutido logo mais. E toda sexta-feira sinto um certo remorso por estar tão atrasado, e fico pensando como é que eu pude não ler isso antes, com um pouco mais de tempo.

"A heterogeneidade dos jogos de linguagem não é um destino das sociedades atuais que viria suspender a grande narrativa da política. Ela é, ao contrário, constitutiva da política, é o que a separa da igual troca jurídica e comercial de um lado, da alteridade religiosa ou guerreira de outro" (O desentendimento, Jacques Rancière)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

traços fundantes

Talvez as pessoas nunca encontrem, de fato, uma definição estável para si, mas depois de certa idade existem pelo menos alguns aspectos que começamos - mesmo que um pouco a contragosto - a reconhecer. Nesse ponto da minha vida, só posso discernir dois marcos imprecisos e, no entanto, aparentemente definitivos: 1) eu não sei andar em linha reta e 2) eu só gosto do que é "inútil".

sexta-feira, 19 de março de 2010

testemunho

"Fábio! São dez da manhã e eu ainda estou acordada porque tomei um doce. Ainda louca. Sentada no chão do ap com Aninha no telefone tentando descobrir como a gente chega em Ubatuba, um dj argentino dormindo no chão e um uó colombiano. E eu tô louca, não consigo dormir. Tanta saudade de tu!"

Porque tudo se torna um pedaço de vida quando compartilhado: o desbunde, a falta de dinheiro, as crises.